sábado, 6 de julho de 2019

Morre João Gilberto, o cantor que apresentou a Bossa Nova ao mundo

Cantor baiano de 88 anos vivia no Rio de Janeiro e a causa da morte ainda não foi divulgada 
El País/Cultura
O cantor João Gilberto , (Juazeiro - Bahia, 1931) morreu neste sábado, aos 88 anos. O músico, que vivia no Rio de Janeiro, foi um dos maiores responsáveis por apresentar a Bossa Nova ao mundo. A informação da morte foi confirmada pelo filho do músico, João Marcelo, nas redes sociais, mas a causa ainda não foi divulgada. "Meu pai morreu. Sua luta foi nobre, ele tentou manter a dignidade à luz da perda de sua soberania. Agradeço à minha família (meu lado da família) por estar lá para ele, e Gustavo [Gustavo Carvalho Miranda, advogado e amigo pessoal] por ser um amigo de verdade para nós e cuidar dele como um de nós. Por fim, gostaria de agradecer a Maria do Céu [a moçambicana Maria do Céu Harris, 55, era companheira do músico há mais de 30 anos] por estar ao seu lado até o final. Ela era sua verdadeira amiga e companheira", escreveu o filho, em inglês. Além de Marcelo, o cantor deixa mais dois filhos, Bebel e Luísa.

Os últimos anos da carreira e vida do cantor foram marcados por sua reclusão, dívidas e conflitos familiares. Não recebia ninguém em casa, a não ser alguns familiares, tampouco concedia entrevistas ou se apresentava nos palcos. Em 2017, sua filha, a também cantora Bebel Gilberto, começou a mover um processo de interdição do pai. A razão era sua situação financeira precária: ele chegou a ser despejado do apartamento em que vivia no Rio de Janeiro.


Mas em março deste ano, uma pequena vitória de uma história, porém, que não chegou ao fim a tempo: um tribunal no Rio de Janeiro deu razão a ele em sua batalha judicial contra a gravadora Universal Music. A sentença, unânime, obrigava a empresa a devolver ao músico os royalties que deixaram de ser pagos desde 1964, além de danos morais. Estimava-se que as cifras chegariam a 173 milhões de reais. A gravadora porém recorrera ao Supremo Tribunal federal (STF) e o processo, relacionado aos discos Chega de Saudade (1959), O Amor, o Sorriso e a Flor (1960) e João Gilberto (1961), ainda não foi julgado.

Caetano Veloso definiu em poucas palavras o que a música de João Gilberto significou para o Brasil e o mundo. Após recitar estrofes de canções de outros famosos intérpretes brasileiros, proclamou: "melhor que isso só o silêncio. Melhor que o silêncio, só João".

Com sua interpretação de Chega de Saudade, composta por Tom Jobim e Vinícius de Moraes, deu início a uma revolução que sacudiria a música brasileira e mundial. Sem aquele disco, Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil e muitos outros não existiriam. João Gilberto sempre foi um perfeccionista e um sofredor nato: "Minha imagem dele é a de um Quixote que luta por afinar um universo inevitavelmente desafinado, afirmou Zuza Homem de Mello, crítico musical e amigo pessoal do cantor.

João Gilberto começou muito jovem a cantar música que escutava pelo rádio na praça de sua cidade antes de se mudar para Salvador com a intenção de viver de sua paixão, segundo relata o jornal O Globo. Mais tarde, se estabeleceria no Rio de Janeiro como cantor de um grupo chamado Garotos de Lua. Mas a tentativa não funcionou e ele abandonou a cidade, na época a capital do Brasil, em buscas de novos rumos. Durante seis meses que passou na casa de uma de suas irmãs em Diamantina (MG), saiu pouco de casa, foi econômico nas palavras e passou as noites provando novos ritmos com o violão. Ritmos que acabaram sendo revolucionários.